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Aprender uma coisa nova por dia

Nem sabe o bem que lhe fazia

do capitão sem medo*

todos nós temos um herói. um ídolo. alguém, em quem pensamos com carinho, com quem gostaríamos de trocar meia dúzia de palavras. há gente até que cola fotografias no quarto, na sala, que enche o pc de imagens e eventos da vida do seus ídolos, que os segue com entusiasmo em revistas e internet, que comenta as suas vidas no café, na pastelaria, no autocarro. em portugal há uma série deles. ronaldos, mourinhos, tonis carreiras, marizas. gente dessa. boa em qualquer coisa que leva longe, dizem, o nome triste deste país. são heróis nacionais, recebidos com pompas e coisas boas. voam nos sonhos das pessoas, aparecem na televisão, são pesquisados na internet e elogiados, idolatrados, vistos como gente especial, importante na vida. na nossa vida.

desde miúda, menina ainda, quando sentada numas escadas ouvi a avó contar-me o que fora o vinte e cinco de abril que descobri que tinha um ídolo: Salgueiro Maia. dito assim, com muito respeito. era o meu ídolo. não jogava futebol, nem cantava, nem aparecia nas revistas ou na televisão. quase ninguém o conhecia. mas eu gostava dele. a avó contou-me com comoção o que fizera. tudo tinha uma aura de magia porque na nossa família o irmão do avô fora pide, preso e tudo na revolução, fugindo meses depois e estabelecendo-se numa vida modesta, sem nunca falar, sem nunca aparecer.

foi Salgueiro Maia quem na madrugada da revolução disse, na escola prática de cavalaria,  perante 240 homens: "meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de estado: os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! de maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para lisboa e acabamos com isto. quem for voluntário, sai e forma. quem não quiser sair, fica aqui!". e foi ele que comandou as dez viaturas blindadas que atravessaram a porta de armas da EPC em direção ao terreiro do paço.

em lisboa, Salgueiro Maia escuta um carro-patrulha da PSP informar o respectivo comando da passagem da coluna, impressionado com o número de chaimites: "enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da cidade universitária. olho para o lado e vejo um autocarro da carris também parado. achei que era demais parar a revolução ao sinal vermelho (...) . mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao terreiro do paço".

a missão foi cumprida com êxito antes de ser dado o alarme geral. "charlie oito" (Salgueiro Maia) comunica a "tigre" (Otelo Saraiva de Carvalho): "ocupámos toledo e controlamos bruxelas e viena (banco de portugal e rádio marconi)!"

durante todo esse dia Salgueiro Maia enfrentou os acontecimentos com a coragem que faltara a tantos portugueses ao longo do regime. a meio da tarde, por exemplo, de braços erguidos, agitando um lenço branco, coloca-se sozinho em frente a carros de combate M/47 de cavalaria 7 seguidos de atiradores do regimento de infantaria 1, da amadora, e alguns soldados da PM de Lanceiros 2. "o momento decisivo foi no terreiro do paço, quando o brigadeiro junqueira dos reis, que comandava a força que nos interceptou, deu ordem: “dispare sobre aquele homem”. aí, eu tinha duas opções: ou tentava fugir, mas com isso incentivava o instinto do caçador, ou ficava quieto. foi o que fiz e funcionou. primeiro, o alferes comandante do pelotão de carros recusou-se a atirar e foi preso. o brigadeiro deu-lhe voz de prisão, ali mesmo. depois, o brigadeiro foi à torre do carro de combate e disse para o apontador, que era um cabo: “dispare sobre aquele homem”. e o cabo não disparou. e quando um brigadeiro deu aquela ordem de fogo e um cabo não disparou, aí fez-se o 25 de Abril. foi o indicador de que a situação era irreversível."

   

«marcelo estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.

fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. declarou-me já se ter rendido ao sr. general spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o poder, para que o mesmo não caísse na rua! sstive para lhe dizer que estava lá fora o poder no povo e que este estava na rua. declarou esperar que o tratassem com a dignidade com que sempre tinha vivido e perguntou o que ia ser feito dele. declarei que certamente seria tratado com dignidade, mas não sabia para onde iria, pois isso não me competia a mim decidir. perguntou a quem competia. declarei que a «Óscar». perguntou quem era «Óscar». declarei ser a comissão coordenadora. perguntou-me quem eram os chefes. declarei serem vários oficiais, incluindo alguns generais, isto para que ele não ficasse mal impressionado por a revolução ser feita essencialmente por capitães.

perguntou-me ainda o que ia ser feito do ultramar. declarei-lhe que a solução para a guerra seria obtida por conversações. toda esta conversa, tida a sós, teve por fundo o barulho do povo a cantar o hino nacional e o está na hora».


o capitão sem medo morreu em 1992, derrotado por um cancro, para o qual não serviu coragem, revolução ou armas. exigiu ser sepultado em campa rasa e sem honras de estado,  sem os arrebiques e salamaleques que também acompanham algumas mortes. uma campa rasa, no meio dos outros, do povo de que fazia parte e de que nunca quis abandonar, recusando privilégios ao longo da sua vida. 

 

salgueiro maia era, foi, é o meu ídolo. o meu herói de infância, ao qual olho ainda com a inocência que guardamos para aqueles que nos conquistam em crianças. não tenho nenhum poster dele no meu quarto. não tenho imagens dele no meu pc. mas lembro a coragem para enfrentar os dias cinzentos da minha vida. guardo dele a força para as minhas própias lutas.

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Fontes: http://www.vidaslusofonas.pt/salgueiro_maia.htm; http://anabelamotaribeiro.pt/foi-muito-bonita-a-festa-pa-40-anos-do-191657

 

originalmente este texto estava agendado para amanhã. mas por questões logisticas do blog, às quais sou alheia, sai hoje. 

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