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Aprender uma coisa nova por dia

Nem sabe o bem que lhe fazia

Abandono Escolar

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Falei-vos aqui que devemos ter na vida uma postura informada e sempre que possível emitirmos a nossa opinião para que não sejam os outros a tomarem as rédeas da nossa vida. Neste campo da formação pessoal e do poder crítico dos indivíduos, a escola assume uma posição bastante importante. No entanto, a meu ver, o atual sistema de ensino favorece a normalização e o conformismo, em vez do poder crítico dos indivíduos. Se não, vejamos.

 

De acordo com a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei n.º46/86, de 14 de Outubro):

 

A educação é um direito de todos e tem por objectivo favorecer o desenvolvimento global e harmonioso da personalidade do indivíduo como também o progresso social, promover o desenvolvimento de um espírito democrático, plurista e crítico.”

 

No entanto, a escola tem por base uma premissa perigosa: O plano nacional de estudos, pressupõe que todos as crianças são iguais e que por isso devem estudar todas as mesmas coisas, ou seja, não há adequação dos conteúdos abordados nas escolas. Certo que TODAS as crianças são diferentes e não era possível adequar os conhecimentos de cada um ao sistema escolar para se potenciar o progresso social de um ponto de vista individual, nem é isso que se pretende. Mas seria perfeitamente possível, viável, e na minha opinião bem mais proveitoso, adequar os estudos consoante as localizações das crianças, porque as crianças dos meios rurais, digam o que disseram são diferentes das crianças dos meios urbanos. Não, não são "coitadinhas", nem nada que se pareça mas têm um conhecimento diferente das crianças da cidade, e como Paulo Freire defendia: "Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes." mas a escola não aceita que há saberes diferentes, e categoriza, e aponta o dedo aos que têm um conhecimento diferente da maioria como "burrinhos", "com défices de atenção", "marginais", "desinteressados", entre outros, sem que muitas das vezes exista efetivamente algum problema mental ou relacional. Sem que se preocupem em perceber por que é que aquela criança, aquele jovem, se desinteressa.

 

Lembram-se daquela anedota, onde a criança dizia que o leite vinha do pacote, porque nunca viu uma vaca na vida? É um bocadinho isto que vos quero mostrar. Uma criança que tenha crescido em meio rural, conhece - não todas, obviamente, não querendo generalizar - mais facilmente várias espécies de flores e de frutos, que uma criança da cidade, que nunca viu uma cenoura na terra e não faz ideia de que a mesma não vem de uma árvore, como as cerejas. No entanto o sistema de educação atual, ignora estes saberes diferentes, e por alguma razão o abandono escolar no meio rural é mais elevado que no meio urbano, e Portugal continua a ser um dos países com a taxa mais elevada de abandono escolar precoce, da OCDE.

 

Se é verdade que no meio rural os jovens tendem a abandonar a escola pela necessidade de irem trabalhar para ajudar as famílias - sim, lamento desiludir-vos, mas isto ainda acontece - verdade também é que as atuais estruturas e bases educacionais nesses meios não motivam os jovens a manter-se nas escolas, a estudarem e a concluírem os estudos. Se pensarmos que são os jovens de hoje que são os agentes de produção de amanhã, e se esses jovens não são devidamente escolarizados, então facilmente percebemos que o atual sistema de ensino não promove em todos esse pensamento crítico, esse progresso social e o desenvolvimento democrático que defende no papel. No fundo os jovens abandonam a escola, mas foi a escola que os abandonou primeiro devido ao atual sistema rígido impermeável a regionalismos. Desta forma, a escola nem sempre funciona como promotora de inclusão social mas é muitas das vezes um mecanismo gerador de exclusão. O abandono escolar é por isso um problema social, pois a decisão de abandonar não é repentina, mas sim fruto de um longo processo de tensões, inadaptações, insucessos e desinteresses que passam muitas das vezes despercebidos pela escola e pela família, não obtendo, o jovem, o apoio nem estímulos necessários.

 

Recordo-me de fazer perguntas parvas em casa, normalmente sobre política, ao meu pai, e ele dizer-me "Mas que andas tu aprender na escola?", porque até questões básicas de civismo, e da vida em sociedade não são ensinadas. A meu ver, mais importante que saber que temos mitocôndrias dentro de nós, mais importante que saber que saber que houve um senhor há muitos, muitos anos atrás que plantou o Pinhal de Leiria, conhecido por O Lavrador, é aprender que numa biblioteca devemos estar em silêncio, que não se devem colocar os pézinhos nos sofás de casas alheias nem nos transportes públicos, que não se fala de boca cheia e que se deve querer estudar porque isso nos evolui enquanto pessoas e não porque vai sair num teste. "Ah ó Mula, mas isso é dever dos pais." Também é, é verdade, mas não é só, até porque o tempo que os pais passam com os filhos é mínimo.

 

E depois que penso nisto, penso: será que o sistema de ensino pretende realmente que as pessoas sejam verdadeiramente informadas? É que quanto menos escolarizadas mais controladas são, pelos media, pelo estado, pelos mais ricos e mais poderosos. Sabem vocês o trabalho que é para um patrão ter funcionários conhecedores dos seus direitos?

 

Quanto mais escolarizados os jovens, mais críticos são os jovens. Quanto mais críticos são os jovens mais conscientes são dos seus direitos. Quanto mais são conscientes dos seus direitos mais lutam, mais barafustam, mais se opõe às injustiças que Portugal tantas vezes patrocina. Claro que eu fui, de certa forma, formatada para pensar assim, mas acredito piamente naquilo que vos vou dizer: O atual sistema de ensino quer os indivíduos todos iguais, como uma manada, quanto mais mais iguais forem, mais controlados estão. Os Pink Floid lançaram em 1979 a música Another Brick in the Wall que falava disto, e é incrível como continuam tão atuais:

 

 

 

 

Que será dos nossos jovens, afinal?

 

 

 

Pensem nisto.