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Aprender uma coisa nova por dia

Nem sabe o bem que lhe fazia

Vamos TODOS comunicar?

       Uma vez, por estes lados, referi que mais do que Terapeutas da Fala, somos Terapeutas da Comunicação. E a comunicação é uma das mais importantes condições humanas, aliás, é a forma complexa e explicita de como comunicamos e organizamos pensamentos que nos torna seres racionais. Por este mundo existem muitas doenças que têm adjacentes Perturbações da Comunicação, nomeadamente, autismo, paralisia cerebral, síndrome de locked-in, entre outras. 

          Por Perturbações da Comunicação, entenda-se a dificuldade de comunicar, seja para perceber o que é comunicado seja para comunicar. Normalmente, são pessoas com problemas de fala, de compreensão de informação verbal e com défices cognitivos (apesar de em muitos casos também não os terem). Para estas pessoas, como muitas vezes têm ainda dificuldades motoras associadas, é necessário arranjar uma forma de Comunicação Aumentativa e Alternativa. Palavreado difícil? Nem por isso, apenas quer dizer que vamos encontrar uma forma de melhorar a comunicação de forma à pessoa se tornar independente de uma pessoa para ser compreendida. Vejamos alguns exemplos:

          Esta é uma tabela de comunicação de PCS - Picture Communication Symbols, um dos maus utilizados Sistemas de Comunicação. Antigamente usavam-se livros, em que o utilizador tinha de andar a virar as folhas que se encontravam organizadas por categorias (saudações, verbos, objectos, pessoas, tempo...), ainda hoje as pessoas mais carenciadas utilizam. No entanto, as tecnologias vieram trazer muitas vantagens, e os tablets hoje são uma mais valia para estes sistemas de comunicação, que adaptados adequadamente às necessidades de cada utilizador são práticos e podem ser alterados continuadamente.

           Existem muitos outros sistemas de comunicação, uns mais simples a preto e branco e outros acompanhados de gestos, mas o importante é estes serem adaptados às capacidades cognitivas e motoras de cada pessoa. Ainda é importante dizer, que quanto mais explícitos forem os desenhos, mais fácil será de usar o sistema, apesar de existirem sistema de apenas letras ou palavras (muito usados para perturbações de comunicação adquiridas).

 

        O vocalizador, entra no mesmo sistema de selecção das imagens do que se pretende comunicar, mas tem uma saída de voz que permite ao interlocutor não ter de olhar para o quadro de comunicação e apenas ouvir, apesar de ser muito limitado na sua utilização. 

           E quem não se lembra de Stephen Hawking ou da personagem do filme 'O Escafandro e a Borboleta'? O primeiro com um sistema de comunicação avançadíssimo que é vocalizado por um computador, após a selecção das palavras que são pretendidas transmitir (explicação aqui) e o segundo com um sistema tão básico como a indicação das letras e em que este pestaneja quando quer seleccionar a letra pretendida. Um mais complexo que o outro e um mais demorado que o outro, mas que permitiram a comunicação até para elaboração de livros.

 

             Por isso, há sempre formas de comunicar e apenas foram apresentadas algumas. Precisam de treino, de quem comunica e quem recebe a informação. Precisam de tempo e muita paciência, mas basta estarmos dispostos a comunicar e a perceber o que nos é comunicado que o processo de comunicação se inicia imediatamente. Nem que seja com um piscar de olhos.

Dúvidas? Comuniquem da forma que quiserem!

 

(Imagens retiradas daqui, daqui, daqui, daqui, daqui)

O que é a Afasia?

     No próximo dia 31 de Março celebra-se o Dia Nacional do Doente com AVC (Acidente Vascular Cerebral). Todos já ouvimos falar do AVC ou conhecemos alguém que teve este infortúnio. Infelizmente, apesar do número de óbitos ter diminuído como consequência de AVC, a incidência desta patologia tem vindo a aumentar nos últimos anos devido a vários factores (numa próxima vez falarei deles).

            De forma muito breve, pode-se dizer que o AVC é um derrame cerebral ou o entupimento de uma veia que irriga o cérebro, originado assim a morte de células cerebrais essenciais ao funcionamento do mesmo, levando a perturbações do funcionamento neurológico. Uma das consequências de um AVC poderá ser a Afasia.

 

O que é a Afasia?

      A Afasia é uma alteração adquirida da linguagem, de causa neurológica, caracterizada pelo comprometimento da linguagem, seja na produção e compreensão de material verbal ou da leitura e escrita. Esta perturbação exclui todas as perturbações associadas a défices motores e/ou sensoriais, deficiência mental, perturbações psiquiátricas ou demência. Ou seja, a pessoa que é diagnosticada com uma Afasia poderá ter dificuldades em compreender a informação verbal, escrita ou oral, e ter dificuldades de expressão. Isto não indica que a inteligência da pessoa ficou afectada, nem que a partir de agora nunca mais será capaz de comunicar, mas que a parte do cérebro que ficou afectada era responsável pela comunicação, compreensão e/ou expressão.

 

Tipos de Afasia

      Existem oito tipos de Afasia: Afasia de Broca; Afasia de Wernicke; Afasia de condução; Afasia global; Afasia transcortical motora; Afasia transcortical sensorial; Afasia transcortical mista; e Afasia anómica; estes nomes são dados de acordo com as áreas das lesões cerebrais. Cada uma delas tem características muito próprias, mas a Afasia é avaliada e caracterizada com base em quatro aspectos: a fluência do discurso (se há muitas pausas ou se o discurso flui), nomeação (se a pessoa é capaz de dizer o nome de objectos/pessoas), compreensão (se compreende ou não o que lhe é dito) e a repetição (se consegue repetir palavras, frases e números).

            No seguinte quadro poderão ver as principais características de cada uma das afasias.

(Quadro retirado daqui)

 

O papel do Terapeuta da Fala na Afasia

            Sendo então o Terapeuta da Fala o terapeuta responsável pela comunicação é então o terapeuta que irá trabalhar com o paciente com Afasia (nunca gostei do termo afásico, a pessoa não se caracteriza por ter afasia, mas sim por ser uma pessoa). O terapeuta da fala trabalha na perspectiva da reabilitação das competências da comunicação, com o treino de nomeação de imagens, na melhoria da competência da fluência do discurso, no treino da leitura e da escrita, assim como no treino auditivo e processamento da informação verbal (estes são apenas alguns exemplos).

            O terapeuta é ainda responsável por auxiliar e debater, se necessário e houver interesse, a família para fornecer estratégias alternativas de comunicação com o paciente. É responsável por criar estratégias que melhor a qualidade de vida do paciente e a interacção com o seu ambiente (sejam eles profissionais de saúde, amigos ou outros intervenientes dos vários contextos do paciente).

 

Dicas para comunicar com Afásicos

            O Instituto Português de Afasia fornece no seu site (aqui) uma série de dicas importantíssimas para quem comunica com pessoas com Afasia, deixo apenas cinco que considero essenciais e aconselho a visitarem esta nova instituição que tem feito um excelente trabalho na área de sensibilização e tratamento da Afasia.

  1. Não fale mais alto, pessoas com Afasia não são surdas, têm apenas dificuldades de compreensão.
  2. Não infantilize o discurso, lembre-se que tem adultos à sua frente e não uma criança.
  3. Não ignore quando tentam falar.
  4. Tenha paciência, o discurso pode demorar mais a surgir e é preciso dar tempo à pessoa.
  5. Use gestos, expressões faciais e objectos, se necessário for para ajudar na comunicação.

 

        O mais importante com isto é dar a compreender que a Afasia é uma consequência de perturbações neurológicas e, infelizmente, poderá acontecer a qualquer um de nós. Por momentos, coloque-se no lugar da pessoa e tente perceber a dificuldade por que passa ao simplesmente não se conseguir expressar ou perceber aquilo que lhe é dito. Lembre-se, a Afasia é real e surge em pessoas reais, por isso não a vamos ignorar ou fazer de conta que não existe.

Sabiam que o nosso rosto fala?

Pode não parecer logo óbvio, mas o nosso rosto fala!

E Não. Não estou a falar da nossa boca. Falo mesmo do nosso rosto.

 

Existem mais de 40 músculos que se contraem e relaxam simultaneamente e isto permite-nos exprimir um número quase infinito de emoções e sentimentos. Não só somos capazes de reconhecer rostos, como também o nosso cérebro é capaz de reconhecer o que outros rostos nos dizem.

Obvio que todos nós vemos o mundo de forma diferente, mas será que isso se aplica aos rostos também?

 

Ora, façam lá este exercício:

 

  1. Ao olhar para a imagem seguinte, conseguem identificar rostos de felicidade, raiva e tristeza?
  2. Qual o tipo de rosto que vos captou mais rapidamente a atenção?

shutterstock_93357283_Web.jpg

 

 

Responderam o de raiva? É normal.

 

Acredito que se tenham saído bem no exercício anterior, pois o nosso cérebro está programado para identificar traços comuns nos diversos rostos existentes (mesmo que os traços pertençam à mesma pessoa. Por exemplo: Eu posso ter várias expressões de felicidade, mas todas com traços comuns que indicam que é de felicidade que estamos a falar).

E porquê?

Pois só assim se conseguiu fomentar a evolução das espécies. O reconhecimento facial da nossa espécie permite-nos saber quando alguém está interessado em nós, se está triste, infeliz ou se alguém é uma potencial ameaça. E identificar uma ameaça é uma das especialidades do cérebro.

Estudos mostram que no meio de vários rostos conseguimos identificar mais facilmente os rostos zangados, mais depressa do que os outros. Isto está na base de um mecanismo de defesa que o nosso cérebro tem programado, para reconhecer potenciais ameaças onde quer que estejam.

Mas lá porque o nosso cérebro esta concebido para identificar rostos e expressões, não quer dizer que não se engane...

 

O Dr. Jim Coan, um neurociêntista da Universidade de Virgínia, explica que os cientistas pensam que existe uma parte do cérebro só destinada ao reconhecimento facial denominado por giro fusiforme e que demora menos de 200 milissegundos a reconhecer um rosto (menos do que a pestanejar). Não só a cara, nariz, boca, olhos, mas também outros elementos não faciais como o cabelo, o pescoço, a forma como a cabeça se mexe, etc.

Para o nosso cérebro um rosto é como um puzzle que só faz sentido depois de juntas todas as peças. Quando vê as peças isoladas, não as recorda, ou não fazem tanto sentido, a menos que conheça mesmo muito bem o rosto dessa pessoa. Assim, sabemos que o reconhecimento facial acontece no giro fusiforme, mas é o lobo occipital que reconhece as peças individuais como o nariz, a boca, os olhos. Depois cabe ao giro fusiforme ter de combinar isso tudo e reconhecer a cara.

 

De todas as características do nosso rosto, há duas que se sobressaem e são mais importantes do que as outras. São elas, os olhos e as sobrancelhas!

 

Podemos transmitir montes de emoções através dos olhos, mas os nossos olhos, especialmente a parte branca, têm outra função importante: Mostram aos outros quem ou o que estamos a ver.

O ser humano é muito sensível aos olhos dos outros humanos porque o olhar demonstra intenção, seja ela qual for. Podemos estar a observar o mundo à nossa volta mas se fixamos os olhos em alguém, ou se alguém fixar os olhos em nós a intenção é menos clara. Só sabemos que alguém foca a atenção em nós e o cérebro, normalmente, pode interpretar isso como um sinal de agressão. Por isso reage em conformidade: rende-se ou responde.

O rosto é uma ferramenta da expressão facial, e esta, pode ser usada para mostrar reprovação, felicidade, preocupação, ou nojo, a outros membros do grupo. Mas os rostos também nos dizem como é que os outros se sentem. E neste caso, se olharmos fixamente para alguém, ou se alguém olhar fixamente para nós, o olhar fixo transmite aos sujeitos que fizeram algo errado e que o resto do grupo não gostou. Esta forma de comunicação não-verbal, já existia antes do ser humano falar e continua a ser eficaz. Por isso, se eu ficar parado e se um monte de pessoas começar a olhar para mim eu vou começar a pensar naturalmente “o que é que eu fiz de mal?” e esta sensação/pensamento começa a fazer aumentar o nível de tensão e consequentemente a libertar adrenalina e cortisol. Tal libertação, faz-nos respirar de forma mais rápida e a pulsação aumenta, aumentando também a temperatura do nosso corpo.

 

[Tudo isto por causa de uma atenção não desejada… Já repararam?]

 

Agora, para além dos olhos, é incrível como pode existir uma característica mais importante para o cérebro no que toca ao reconhecimento facial: as sobrancelhas.

Estas, são importantes para reconhecer um rosto, muito mais do que pensamos. Como são grandes e criam contraste com o resto do rosto, o cérebro reconhece-as imediatamente e a aparência sobre as sobrancelhas pode informar o nosso cérebro se ele é homem ou mulher, ou criança ou adulto.

 

Sabem quem é esta cara conhecida, sem sobrancelhas?

 

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 Sim, é isso!

 

J.Lo-com-e-sem-sobrancelha222.jpg

É a Famosa Jennifer Lopez! 

 

 

Agora, escusam de tentar "ter cuidado" com a expressão destas emoções, pois todas nos são muito naturais, e quando sentidas, transmitem-se espontaneamente, sem que tenhamos algum controlo sobre elas. Embora que, sem dúvida alguma, alguns de nós sejam mais transparentes do que outros.

 

 

É incrível como comunicamos, mesmo sem nos apercebermos, não é?

 

 

*Post baseado no programa "The Brain Games", do National Geographic.