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Aprender uma coisa nova por dia

Nem sabe o bem que lhe fazia

do suicídio

não é fácil escrever sobre o tema. ainda que seja mais fácil escrever do que falar, ainda assim não é fácil. podia dar-vos somente a minha experiência pessoal. sempre era ler/aprender sobre qualquer coisa. podia descrever-vos a dor, a angustia, o medo, o sentimento de auto comiseração, as tentativas falhadas e frustradas. a certeza que o fim era mesmo o fim e todo o corpo a reagir com repulsa a essa ideia, ainda que a mente, doente, me levasse a procurar essa saída como única.

no entanto, não é sobre a minha pessoa que se trata este blog.

é muito comum ouvirmos dizer que quem ameaça não tem intenções de cumprir. que é apenas uma chamada de atenção. todos nós já ouvimos isso assim como ouvimos criticas, julgamentos a quem se suicida. normalmente a lingua é mais afiada a quem se tenta suicidar, como que se tudo aquilo fosse um aparato de um catraio de quatro anos a fazer birra no supermercado porque quer um chocolate.

acontece que todas as pessoas que ameaçam suicidar-se estão a pedir ajuda. pode ser um pedido rebuscado, mórbido, quase humilhante, quase uma mão estendida numa espécie de orgulho tétrico. mas é um pedido de ajuda. quem o faz está a dizer que por aquilo que consegue ver, todas as saídas para o estado actual, para aquilo que vive e sente lhe estão vedadas. e precisa de ajuda por forma a tornar possível alguma coisa.

o mais irónico é que, segundo alguns médicos, apesar de os doentes de uma depressão profunda puderem sentir-se atraídos pelo alivio do suicídio, passando horas, dias, meses a planeá-lo, de uma maneira geral não têm iniciativa de o fazer pois que acreditam que são tão indignos que não merecem escapar da dor. é quando o seu estado parecer melhorar um pouco que algumas pessoas ganham finalmente a força de que precisam. irónico não é? como fazer compreender isto a familiares e amigos?

o suicídio é, muitas vezes, escolhido como a única maneira que as pessoas deprimidas têm de fugir quando são incapazes de tolerar por mais tempo a vida como ela é. ou melhor, a vida como a vêem. não são capazes de a mudar, ou sua percepção dela, por várias razões. algumas ligadas aquilo que as pessoas esperam delas ou aquilo que elas acham ser o que as pessoas esperam. outras vezes, a razão deve-se ao facto de acreditarem que já não conseguem cumprir qualquer objectivo útil na vida e que são um fardo para todos aqueles que amam, para os amigos ou para a sociedade.

uma tentativa falhada de suicídio pode ser vista como um grito muito real de pedido de ajuda. nesta fase, as pessoas deprimidas já passaram o ponto de poderem ajudar-se a si mesmas. precisam realmente de ajuda: quer profissional, quer a compreensão e aceitação dos que amam. precisam de ser levadas a sério. não conseguem sair desse estado com facilidade porque se conseguissem seriam as primeiras a fazê-lo. afinal é a vida delas que está em risco.

 

é só por isso que vos queria pedir que não sejamos tão rápido a apontar o dedo a alguém que se suicidou. não usemos de escárnio ou julguemos, só porque sim, chamando cobarde pelo canto da boca. na verdade, a falha não foi só da pessoa mas também um pouco daqueles que o rodeavam e não conseguiram perceber sinais, dores e estender-lhe o braço ou colar mesmo a mão de maneiras a arrancá-lo do poço de trevas onde estava atolado.

e quando alguém ameaçar fazê-lo não assumamos como uma infantilidade, uma chamada infantil de atenção: ninguém pode julgar como menor a dor de cada um. e se amamos a pessoa ou nos preocupamos é nossa obrigação ver mais além do que considerações idiotas e julgamentos de cobardia. isso não ajuda em nada. nem à pessoa nem a nós.

 

"Não restará na noite uma só estrela.
Não restará a noite.
Morrerei e comigo irá a soma
Do intolerável universo.
Apagarei medalhas e pirâmides,
Os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei da história pó, do pó o pó.
Estou a olhar o último poente.
Oiço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém."

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

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